Por Aparato Cultural
7 cidades da Bahia onde o passado ainda faz parte da paisagem
Bahia

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De antigas cidades do garimpo a núcleos coloniais do Recôncavo, municípios baianos preservam ruas, casas, igrejas e paisagens que ajudam a contar a história do estado
A Bahia é frequentemente lembrada por suas praias, festas, música e gastronomia. Mas existe outra Bahia espalhada pelo território: aquela que pode ser lida nas fachadas das casas, nas ruas estreitas, nas igrejas, nos antigos caminhos comerciais e nas paisagens urbanas que sobreviveram ao tempo.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece, além de Salvador, outros nove conjuntos urbanos tombados no estado: Cachoeira, Igatu, Itaparica, Lençóis, Monte Santo, Mucugê, Porto Seguro, Rio de Contas e São Félix. Esses lugares ajudam a contar diferentes momentos da formação histórica baiana, da ocupação colonial à mineração no interior.
Conheça as sete:
1. Cachoeira — o Recôncavo que guarda a arquitetura colonial
Às margens do rio Paraguaçu, Cachoeira preserva um dos conjuntos urbanos históricos mais importantes da Bahia.
A cidade se desenvolveu em meio às atividades econômicas do Recôncavo, especialmente a produção de açúcar e, posteriormente, o fumo. Seu conjunto arquitetônico reúne sobrados, igrejas e espaços públicos que testemunham diferentes períodos da ocupação da região.
Entre os edifícios preservados está um sobrado do século XVIII que atualmente abriga o Museu Regional de Cachoeira e o escritório técnico do Iphan. A construção revela características da arquitetura cachoeirana e também soluções utilizadas para proteger mercadorias das enchentes do rio.
Mais do que um conjunto de prédios antigos, Cachoeira conserva parte da paisagem urbana formada durante um período fundamental para a história econômica e social do Recôncavo.
2. Mucugê — quando os diamantes transformaram a paisagem
Na Chapada Diamantina, Mucugê cresceu ligada à exploração de ouro e diamantes.
A cidade teve seu conjunto arquitetônico e paisagístico tombado pelo Iphan em 1980. Entre as construções preservadas estão casas térreas e sobrados da segunda metade do século XIX, além de igrejas e do conhecido Cemitério de Santa Isabel.
O cemitério é um dos elementos mais particulares da paisagem local. Seus mausoléus brancos foram construídos na encosta rochosa e apresentam fachadas que lembram pequenas igrejas e capelas.
A história de Mucugê está diretamente ligada à corrida pelos diamantes. Segundo o Iphan, a descoberta de jazidas na região, a partir de 1844, atraiu milhares de pessoas e transformou o local em um dos principais centros da mineração baiana no século XIX.
Hoje, caminhar por suas ruas é também percorrer os vestígios dessa antiga economia do garimpo.
3. Lençóis — a cidade construída pelo ciclo do diamante
Também na Chapada Diamantina, Lençóis nasceu como um núcleo de mineração.
A descoberta dos ricos garimpos do rio Lençóis, em 1845, atraiu garimpeiros, comerciantes e compradores de diamantes. A cidade passou a funcionar como importante entreposto comercial da região, recebendo e distribuindo produtos que circulavam entre o interior e o litoral.
O conjunto arquitetônico e paisagístico de Lençóis foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil em 1973. Em 2023, o Iphan realizou um seminário para marcar os 50 anos do tombamento da cidade.
A paisagem que hoje atrai visitantes pela arquitetura e pelas belezas naturais também é resultado de uma história marcada pelo garimpo.
4. Itaparica — uma cidade entre o mar e a história
Na Ilha de Itaparica, a cidade preserva um conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico tombado pelo Iphan em 1980.
A ocupação da ilha remonta aos primeiros tempos da colonização portuguesa. Sua posição estratégica na Baía de Todos os Santos fez com que a região fosse alvo de disputas e ataques, inclusive durante as invasões holandesas.
Entre os elementos históricos preservados estão igrejas, sobrados, a Fonte da Bica e o Forte de São Lourenço.
A fortificação teve origem em estruturas construídas durante o período das invasões holandesas e a construção atual data do século XVIII. O forte também participou das lutas relacionadas à Independência da Bahia, em 1823.
Em Itaparica, a história aparece praticamente lado a lado com o cotidiano: casas, igrejas, praias e ruas fazem parte de uma mesma paisagem.
5. Porto Seguro — além da imagem turística
Porto Seguro costuma ser associada ao turismo de praia, mas a cidade também preserva um importante conjunto histórico.
O conjunto arquitetônico e paisagístico da Cidade Alta foi tombado pelo Iphan em 1968. A área reúne construções, ruas, igrejas e ruínas relacionadas ao período colonial.
A Cidade Alta e a Cidade Baixa são ligadas por ladeiras e escadarias. Entre os elementos preservados estão o Marco do Descobrimento, o Paço Municipal e ruínas de antigas construções religiosas e militares.
A paisagem histórica de Porto Seguro, portanto, vai além do cartão-postal: ela revela diferentes camadas da ocupação da região ao longo dos séculos.
6. Rio de Contas — memória da Chapada
Rio de Contas é outro município da Chapada Diamantina cuja paisagem urbana está ligada à ocupação do interior baiano.
A cidade integra os conjuntos urbanos protegidos pelo Iphan na Bahia. Em 2025, o instituto realizou obras de preservação em imóveis históricos do município e restaurou peças sacras pertencentes à paróquia local.
Entre os imóveis preservados está a antiga Casa de Câmara e Cadeia, construída em um período em que esse tipo de edifício concentrava funções administrativas e judiciais.
A cidade mostra como a história da Bahia não se limita ao litoral: o processo de ocupação do interior também deixou marcas arquitetônicas e culturais que permanecem visíveis.
7. Igatu — casas de pedra entre as montanhas
No município de Andaraí, na Chapada Diamantina, está Igatu, antiga povoação ligada ao ciclo do diamante.
A vila surgiu dentro da dinâmica das chamadas Lavras Diamantinas. Garimpeiros e comerciantes passaram pela região e, com a exploração das pedras preciosas, o pequeno povoado cresceu.
Uma das características mais marcantes de Igatu é a utilização das pedras disponíveis na própria região na construção das casas. O resultado é uma paisagem singular, integrada às montanhas da Chapada.
A história do lugar permanece visível não apenas nos edifícios, mas também na própria relação entre arquitetura e território.
Os nove conjuntos urbanos tombados pelo Iphan na Bahia, além de Salvador, representam apenas uma parte da diversidade histórica do estado.
Há cidades marcadas pela cana-de-açúcar e pelo fumo, outras pela mineração, pela localização estratégica ou pelas diferentes etapas da ocupação do território.
Preservar essas paisagens não significa manter uma cidade congelada no passado. O patrimônio material inclui justamente os espaços onde diferentes gerações continuam vivendo, circulando e construindo novas histórias.
Talvez seja essa uma das maneiras mais interessantes de conhecer a Bahia: não apenas procurando aquilo que foi construído recentemente, mas observando o que ainda permanece diante dos nossos olhos.