Por Aparato Cultural
5 filmes que transformaram a maneira como o Nordeste era representado no cinema brasileiro
nordeste

Imagem 1 de 1
Do sertão de Graciliano Ramos à periferia urbana contemporânea, filmes ajudaram a construir novas imagens e narrativas sobre a região
Durante boa parte da história do cinema brasileiro, o Nordeste apareceu associado a imagens como a seca, o cangaço, a pobreza e a religiosidade. A partir principalmente dos anos 1960, alguns cineastas começaram a modificar essa representação.
O Nordeste deixou de ser apenas cenário para histórias conduzidas por personagens externos à região e passou a ocupar o centro de narrativas sobre desigualdade, conflitos sociais, cultura popular, memória e identidade.
Alguns filmes foram especialmente importantes nesse processo. Confira cinco obras que ajudaram a transformar a maneira como o Nordeste foi representado no cinema brasileiro.
Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos
Baseado no romance de Graciliano Ramos, Vidas Secas acompanha Fabiano, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia durante suas tentativas de sobreviver à seca no sertão.
O filme não transforma a pobreza em espetáculo. A narrativa acompanha a rotina da família, o trabalho, a fome, a migração e a relação de dependência com os proprietários de terra.
A paisagem também possui uma função importante. O sertão árido interfere diretamente na vida dos personagens e ajuda a construir o ritmo do filme.
A obra foi uma das referências do Cinema Novo e contribuiu para consolidar uma estética cinematográfica interessada em retratar problemas sociais brasileiros sem recorrer às fórmulas tradicionais do cinema comercial.
Mais do que contar a história de uma família sertaneja, Vidas Secas colocou no cinema questões relacionadas à concentração de terra, à pobreza rural e à migração provocada pela seca.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
Poucos filmes estão tão associados à representação cinematográfica do sertão quanto Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Dirigido pelo baiano Glauber Rocha, o filme acompanha Manuel, um vaqueiro que entra em conflito com um coronel e foge pelo sertão com sua mulher, Rosa.
A partir daí, a narrativa passa por diferentes figuras que fazem parte do imaginário histórico e cultural do Nordeste, como o beato Sebastião e o cangaceiro Corisco.
O filme mistura referências históricas, religiosidade popular, literatura de cordel, música e elementos do imaginário sertanejo. A narrativa é marcada por uma linguagem visual e sonora própria, distante do padrão convencional do cinema comercial.
Rodado em diferentes localidades da Bahia, incluindo a região de Monte Santo e Canudos, o filme também transformou o território baiano em parte fundamental de sua construção cinematográfica.
O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, O Pagador de Promessas levou para o cinema uma história ambientada em Salvador.
O protagonista, Zé do Burro, faz uma promessa após o adoecimento de seu animal. Depois de conseguir cumprir sua parte, chega à Igreja de Santa Bárbara carregando uma grande cruz, mas encontra resistência para entrar no templo.
A história parte de um conflito aparentemente simples para discutir questões maiores: intolerância religiosa, diferenças sociais, instituições e choque entre tradições populares e estruturas oficiais.
O filme também é importante por mostrar uma Bahia urbana, religiosa e socialmente diversa, em vez de restringir a representação nordestina ao sertão.
Sua repercussão internacional ajudou a ampliar a presença do cinema brasileiro fora do país. A produção conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1962, tornando-se o primeiro filme brasileiro a receber o principal prêmio da competição.
Central do Brasil (1998), de Walter Salles
Décadas depois do Cinema Novo, Central do Brasil apresentou outra representação importante do Nordeste.
A história começa no Rio de Janeiro, acompanhando Dora, uma mulher que escreve cartas para pessoas analfabetas na estação Central do Brasil. Depois da morte da mãe de Josué, um menino que procura o pai, os dois iniciam uma viagem em direção ao Nordeste.
A viagem passa por diferentes cidades e paisagens até chegar ao sertão nordestino. O Nordeste não aparece somente como lugar de pobreza, mas também como espaço de pertencimento, religiosidade, relações familiares e memória.
A obra recebeu reconhecimento internacional e foi indicada a dois Oscars: Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.
O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes
Se os filmes anteriores ajudaram a consolidar representações do Nordeste relacionadas ao drama social, O Auto da Compadecida mostrou outra possibilidade.
Baseado na peça de Ariano Suassuna, o filme acompanha João Grilo e Chicó, dois amigos que sobrevivem utilizando esperteza em uma pequena cidade do sertão. A produção combina comédia, religiosidade, literatura popular, crítica social e referências ao cordel.
A pobreza continua presente, mas não é o único elemento da representação. Os personagens possuem humor, inteligência, contradições e estratégias próprias para lidar com as dificuldades.
A obra também utiliza elementos da cultura popular nordestina para construir uma narrativa acessível a um público nacional.
O resultado foi um dos filmes brasileiros mais populares de sua geração e ajudou a consolidar uma representação do Nordeste que combinava humor e crítica social sem abandonar as referências culturais da região.
Esses cinco filmes pertencem a períodos e propostas cinematográficas diferentes.
Vidas Secas e Deus e o Diabo na Terra do Sol estão diretamente ligados às experiências do Cinema Novo. O Pagador de Promessas antecede a consolidação do movimento e apresenta uma Bahia urbana e religiosa. Central do Brasil e O Auto da Compadecida, realizados décadas depois, apresentam outras possibilidades de representação.
Juntos, eles ajudam a perceber como a imagem cinematográfica do Nordeste foi se transformando.